sexta-feira, 24 de junho de 2016

Vocativo

Hoje eu guardei nossas lembranças e a constância das coisas.
Hoje os livros estavam na estante, o café à mesa e a metáfora experiente na língua dos velhos.
Hoje perdi o ônibus, me atrasei, divaguei e perdi a mim mesmo no devaneio cotidiano.
Hoje descansei e roguei aos céus que meu sono fosse suficiente pra destituir da memória o gosto saudoso dessa metalinguagem que me constrói.
Hoje encontrei nossos passados, o futuro que nos exclui e um pileque que me fez homérico.
Hoje, meu amor, eu te reencontrei e me perdi, e pedi que também te encontrasse, pois tu não eras mais tu e eu não era mais eu nos teus braços, com meus afagos tão infinitamente desperdiçados e amenizados em braços outros.
Hoje eu redescobri aquele apelo que me faz secretamente chamar meu próprio nome, vocativo que todos os dias, em todos os lugares, em todos os rostos que me passaram, em todos os nomes que me chamaram, me traz de volta o teu rosto, teu toque, teus olhos que me perfuravam e que hoje apenas fugazes me cortam ao meio, em meio à multidão.

(O vocativo é um chamamento, uma invocação, um apelo)