segunda-feira, 30 de outubro de 2017

24h

Como você está depois de todo esse tempo? Hoje passei por aí. Pensei em descer do ônibus e te ver, dizer oi e jogar conversa fora, um café ou dois e talvez ver algo na tv com você. Melhor não, eu pensei. Talvez você não estivesse em casa, ou talvez estivesse dormindo. Quem sabe se não ia se recusar a me receber. Eu jamais saberia.
Eu pensei em todas as considerações que fizemos. Em todas as coisas que já conversamos. Hoje, quando me sentei pra almoçar e vi teu lugar vazio à minha frente. Eu não sei se vou, algum dia, conseguir me acostumar com a tua ausência ali, materializada. Voltei à estaca zero.
Não, eu não quero acreditar que você vai embora.
Quando nos veremos de novo? Parecem mil anos desde a última vez. Mil anos que eu carrego esse peso nos ombros. Essa saudade do futuro que não chegou.
Me diz a que horas nós voltaremos a nós. Eu quero apagar a luz e só abrir a janela na hora real, e viver das memórias da ponta dos teus dedos até lá. 
Acho que já estou no limite do abismo.
Não demora a ligar de novo. Eu vou acordar com a frequência da tua voz.

sábado, 28 de outubro de 2017

Pausa

Esse é o meu pedido de desculpas por escrito. Um dos tantos que eu já te fiz. Um que consiga te dizer tudo que eu disse e deixei de dizer pra você.
Um pedido de desculpas que eu queria que eximisse e anulasse meu diploma de filho da puta, esse título tão miserável que eu passei a carregar comigo a partir do momento fatal em que comecei a desperdiçar você. 
Sim, eu vim aqui repetir tudo o que você já ouviu. Essa é uma culpa que eu vou levar comigo até o último segundo de expiração que a minha existência conter. Não, não é por orgulho nem puro remorso. Todo sentimento mesquinho do mundo não contém o arrependimento de cada uma dessas letras, nem a dor que cada lágrima tua descarregou no meu peito.
Eu nos desperdicei. Não soube te cuidar. E isso, meu amor, é uma culpa toda minha. 
Malditos sejam os poetas que me fazem acreditar na remissão se ela não vier de ti. Eu não tenho esse direito de não te deixar escorregar por entre os dedos. 
E, não, eu não quero te ver partir. Eu sei que eu me isolei de nós dois, mas nessa hora morta eu vejo o pedaço rasgado do nosso laço, de quando eu me fiz ausência, e o sangue escorre de ambos os lados.
Eu não posso mais te pedir por inteiro e te devolver meus pedaços.
Desculpa. Tira a culpa. Tira o peso. Tu sabes das minhas faltas. Culpado. Te peço que me liberte delas.
Chegará o dia, meu sol e estrelas, em que, depois dessa madrugada, nós não seremos poente. Lá não haverá choro e ranger de dentes, só a nossa espera tendo ocaso e o teu perdão me sorrindo.
Ali, sem reservas e sem armaduras, transbordando, nós seremos um só.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Você nunca mais vai me ver de novo

Eu queria poder dizer que alguma coisa mudou desde o último texto que te escrevi. Desde aquele nosso último dia de chuva. Desde o começo do fim.
Eu realmente não faço ideia do que isso significa. Particularmente, é como revisitar uma casa antiga, um retiro, de certo modo abandonado, mas que sempre esteve ali. Porém, do lado de fora da janela a chuva nunca pareceu tão forte, os vidros estão completamente embaçados, as gotas escorrem, aqui dentro é escuro e eu mal posso ver os rostos dos meus amigos que espreitam preocupados e ansiosos pra saber o que acontece no breu silencioso desse lugar.
Não posso dizer que é confortável, não posso dizer que me sinto bem aqui. É bastante assustador, na verdade. A atmosfera é pesada, mal dá pra respirar e as paredes parecem assombradas. As molduras dos retratos estão descascadas e empoeiradas, mas as imagens das fotos ainda estão intactas no celular e na retina. Há muitas delas aqui. Só elas, praticamente.
Eu tentei não me trancar aqui dentro. Continuo sentado procurando as chaves, inclusive. Mas eu tentei não cair trôpego e dilacerado sobre a porta, quando cheguei, tentei não me arrastar pelo assoalho pra encontrar um lugar em que eu pudesse me dobrar e ali ficar, tentei não ouvir o vento batendo a porta e girando a fechadura. 
Juro que tentei.
Me desfazer das tuas lembranças, não olhar pra essas fotos, quem sabe tirar da cabeça, fazer uma lobotomia, me apagar de excessos, conhecer outros corpos, abrir as cortinas, tomar um banho, trocar de roupa. Nem as muitas festas ou idas ao hospital, nem os muitos trabalhos ou toda a música da minha vida. Nada.
Eu não consigo cortar esse laço. Eu não posso. Essas lembranças também são minhas, não são? Deixem-me ficar com elas! Eu não posso me apagar, não, não tenho onde cair morto. É simples, tão simples que chega a ser ridículo: eu não posso me apagar de você.
E você? Ah, de mim você nem lembra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Atrás da porta

Eu tentei, juro. Tentei bancar o herói. Tentei buscar uma força sobrenatural talvez psiquicamente inexistente que pudesse carregar nós dois ao mesmo tempo, fosse numa teia a muitos pés de altura ou nos meus próprios braços enquanto sobrevoaríamos a cidade. Falhei, descobri que sou fraco e que eu só podia carregar teu corpo nos meus braços mas sucumbiria assim que desse o primeiro passo, e assim o fiz. A sensação interminável de cair só não é pior do que a dor de se estabacar no chão, se sentir quebrado, sem conserto. Não passa nunca, não para de doer e parece que só se repete e repete cada vez que eu lembro de como foi a primeira vez que chegamos aqui.
Eu tentei, tentei com todas as minhas forças pôr aquele sorriso lindo no teu rosto. Tentei te fazer rir todas as vezes que eu pude, só pra não rever a sombra nos teus olhos, só pra ouvir o som do teu riso. O que sobrou agora foi só o teu olhar perdido, tua boca em negação e meu punho sangrando depois de socar a parede.
Eu tentei ao máximo te trazer pra mim. Tentei despertar em ti aquela linha tênue entre a razão e a loucura que leva a gente ao risco. Tentei ser uma das tuas razões pra acordar de manhã e encarar o mundo, aquele nome que a gente ouve e sente as borboletas dançando no estômago. Clichê miserável. Falhei, falhei e falhei. Em tudo. Eu sabia que jamais seria capaz de te acordar do pesadelo, de te tirar dessa sala vazia e te mostrar o outro lado do mundo.
Nos perdemos.
Até as boas lembranças estão embaçadas. Parece que há anos nós nos vimos pela primeira vez. Estavas lindo naquele dia. Lembra quando tentamos dançar? Eu devia ter te chamado pra plateia mais vezes se tivesse descoberto antes que eu subia no palco só pra te ver ali sentado. Eu jamais vou esquecer de como te apresentei pra família, aos poucos. De como dividimos nosso teto de estrelas. Das nossas fotos de ano novo. De como estavas lindo aquela noite e de como eu amei te ver rindo e correndo pela praia junto comigo, de como eu segurei tua mão com força enquanto o mundo era um borrão a nossa volta, de como nos beijamos enquanto aqueles fogos estouravam no céu e prometiam que eu te teria pro resto desse ano. Ouvimos que promessas são coisas que foram feitas pra não serem quebradas, nunca. Tu não sabes o quanto eu queria que a promessa daqueles primeiros céus de 2017 fosse real e que tu continuasses aqui comigo. Sei que é egoísmo puro e que eu te disse que não tinha o direito de te pedir pra ficar. Mas eu só queria que soubesses que eu te dei tudo, até o que não tinha, e que sempre vou estar aqui te esperando, sentado nesse banco do ponto de ônibus onde sempre nos despedimos, pensando em quando te veria de novo. 
Agora essa é a pergunta que eu vou carregar comigo todos os dias em que eu acordar sozinho, sair pra encarar a cidade, encontrar as pessoas na rua e enxergar nelas alguma coisa que me lembre de ti e de como minha tristeza desaparecia quando estavas no meu abraço. Espero que esse sentimento tenha sido algum dia recíproco. Que no meu abraço tu tivesse encontrado algum refúgio pra esquecer desses pedaços que um dia fizeram de ti. Que eu não tenha desperdiçado teu tempo. Eu só queria ver teu sorriso e ouvir tua voz dizendo que estavas bem.
No fim, eu tentei e acho que só não falhei em uma coisa: em te deixar ir embora.