quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Morena

Holofotes.
Flash.
Câmera, ação.
E eu só quis ver teus olhos.
Nada mais importava. Não aos acordes, não ao piano, nada à plateia. Naquele momento éramos só tu e eu.
Era o que eu ansiava: no meio de tanta gente, só os teus olhos me viam. A canção era reescrita, poesia nova, jamais outrora cantada. Entenda, amor, eu nunca fui compositor, mas aquele palco foi testemunha fiel da novíssima melodia mais bela já ouvida pelo mundo. O primeiro texto que eu te dediquei foi registrado na conexão dos nossos olhares, passado no cartório do público e a minha alma gesticulava a pena ao ar pronta pra redigir aquela declaração que há muito eu guardava e que finalmente minha boca te escrevia. Sim, amor, nós somos orais.
Tenho certeza que aquela música eu jamais aprendi, nunca ensaiei e sequer aqueci a voz pra cantar. Não, tu fizeste tudo novo, me trouxeste tudo novo. Tua pele não é morena. Tu chegaste e desarrumaste a cama, viraste a louça do avesso, me despiu de incertezas. Hoje começo a entender que, se me és música, és comida, bebida, sono, riso, melancolia, ciúme, carne e osso. Tua franca inocência é realidade pura que ninguém, em lugar algum, pôde pensar que me deteria.
Licença parafrástica camoniana, talvez seja nisso em que tudo me defina: oferecer os pulsos, entregar-se e estar preso por vontade própria.