Eu tentei, juro. Tentei bancar o herói. Tentei buscar uma força sobrenatural talvez psiquicamente inexistente que pudesse carregar nós dois ao mesmo tempo, fosse numa teia a muitos pés de altura ou nos meus próprios braços enquanto sobrevoaríamos a cidade. Falhei, descobri que sou fraco e que eu só podia carregar teu corpo nos meus braços mas sucumbiria assim que desse o primeiro passo, e assim o fiz. A sensação interminável de cair só não é pior do que a dor de se estabacar no chão, se sentir quebrado, sem conserto. Não passa nunca, não para de doer e parece que só se repete e repete cada vez que eu lembro de como foi a primeira vez que chegamos aqui.
Eu tentei, tentei com todas as minhas forças pôr aquele sorriso lindo no teu rosto. Tentei te fazer rir todas as vezes que eu pude, só pra não rever a sombra nos teus olhos, só pra ouvir o som do teu riso. O que sobrou agora foi só o teu olhar perdido, tua boca em negação e meu punho sangrando depois de socar a parede.
Eu tentei ao máximo te trazer pra mim. Tentei despertar em ti aquela linha tênue entre a razão e a loucura que leva a gente ao risco. Tentei ser uma das tuas razões pra acordar de manhã e encarar o mundo, aquele nome que a gente ouve e sente as borboletas dançando no estômago. Clichê miserável. Falhei, falhei e falhei. Em tudo. Eu sabia que jamais seria capaz de te acordar do pesadelo, de te tirar dessa sala vazia e te mostrar o outro lado do mundo.
Nos perdemos.
Até as boas lembranças estão embaçadas. Parece que há anos nós nos vimos pela primeira vez. Estavas lindo naquele dia. Lembra quando tentamos dançar? Eu devia ter te chamado pra plateia mais vezes se tivesse descoberto antes que eu subia no palco só pra te ver ali sentado. Eu jamais vou esquecer de como te apresentei pra família, aos poucos. De como dividimos nosso teto de estrelas. Das nossas fotos de ano novo. De como estavas lindo aquela noite e de como eu amei te ver rindo e correndo pela praia junto comigo, de como eu segurei tua mão com força enquanto o mundo era um borrão a nossa volta, de como nos beijamos enquanto aqueles fogos estouravam no céu e prometiam que eu te teria pro resto desse ano. Ouvimos que promessas são coisas que foram feitas pra não serem quebradas, nunca. Tu não sabes o quanto eu queria que a promessa daqueles primeiros céus de 2017 fosse real e que tu continuasses aqui comigo. Sei que é egoísmo puro e que eu te disse que não tinha o direito de te pedir pra ficar. Mas eu só queria que soubesses que eu te dei tudo, até o que não tinha, e que sempre vou estar aqui te esperando, sentado nesse banco do ponto de ônibus onde sempre nos despedimos, pensando em quando te veria de novo.
Agora essa é a pergunta que eu vou carregar comigo todos os dias em que eu acordar sozinho, sair pra encarar a cidade, encontrar as pessoas na rua e enxergar nelas alguma coisa que me lembre de ti e de como minha tristeza desaparecia quando estavas no meu abraço. Espero que esse sentimento tenha sido algum dia recíproco. Que no meu abraço tu tivesse encontrado algum refúgio pra esquecer desses pedaços que um dia fizeram de ti. Que eu não tenha desperdiçado teu tempo. Eu só queria ver teu sorriso e ouvir tua voz dizendo que estavas bem.
No fim, eu tentei e acho que só não falhei em uma coisa: em te deixar ir embora.