domingo, 3 de março de 2019

Elegia

Você ama sua vida de solteiro. Eu vi isso no movimento displicente e desprezível dos seus ombros largos para a minha inexistência naquele momento fugaz. Não perca mais seu tempo comigo. Continue a conversar com seus contatos. Mande suas fotos íntimas para eles, de preferência aquelas que eu fiz. Marque de novo um dia para você ir visitá-los ou um momento no qual eles dediquem meia hora para você matar essa vontade enorme de senti-los dentro de você. Ou vice-versa. Como queira. Depois do que eu vi, todo o resto se tornou um grande teatro. Relacionamento de aparência, não foi isso o que você disse? Volte a beijar aqueles caras que você sempre quis ficar e nunca ficou, o papinho todo. Mas faça isso antes que você se mude, para evitar o arrependimento. Não faz diferença para mim – e eu não faço para você. Eu fui só uma brincadeira e você uma mentira gostosa de contar. Um divertimento daquela hora e para a rotina. Você nunca quis nada comigo – foi covardia não ter me dito –, o que interessa agora é encontrar um artifício, um eufemismo, para tentar atenuar essa culpa que quer martelar no seu cérebro e você em vão tenta anular. Continue a me esconder para as pessoas que você não quer que saibam de mim. De nós. Do que nós éramos. Continue a fazer de mim o grande vilão dessa história, quando as minhas únicas culpas foram a de confiar cegamente em você, de tentar acreditar em nós, mesmo sendo contraproducente, e de tentar me proteger devolvendo seu crime na mesma moeda – nisso eu falhei: você me atingiu com um tanque de guerra e eu respondi com um calibre 22. Agradeço a você por, pelo menos, não fingir que se importa nessa hora final. Eu não sou o pessimista que só pesa o lado negativo, são as coisas ruins que você faz que têm um peso desproporcionalmente intenso. Compreendi claramente o que significa "desapegar e ficar de boa": você fingir que não estamos no mesmo lugar, que eu sou uma pessoa qualquer, significa você sair para beijar quem quiser quando eu não estiver por perto, mesmo que ainda não tivéssemos definido o fim (talvez você já tivesse até planejado isso). Espero que você aproveite de verdade essa sua vida em São Paulo. Que tenha muito sucesso no trabalho com a competência – e entre outras coisas, a falta de caráter e a capacidade de ser cruel quando quer, por exemplo – que você herdou do seu pai e mais de uma vez já provou ter. Acima de tudo, desejo a você a reciprocidade das suas ações e que você tenha estrutura psíquica para saber lidar com ela, principalmente usando as pessoas como produtos descartáveis, do jeito que você fez comigo. Peça agô a Xangô, porque o tempo tudo cobra.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Asleep

Eu deito olhando pros céus e só quero dormir eternamente. Quero voltar a sonhar com as águas me afogando, as ondas me cobrindo a visão e apertando meu nariz, entrando pela traqueia e expulsando o ar dos meus pulmões.
Eu quero a ilusão de morrer pra sempre porque a realidade não me atende e na realidade eu ainda estou irremediavelmente vivo.
Eu olho pros céus. É pecado eu querer estar no escuro? Pedir pras estrelas me levarem? Questionar Deus a respeito da necessidade da minha existência?
Eu só quero apagar a luz e fingir que não estou aqui. Que fui embora pra nunca mais. Que já chega, não fiz as malas, só cerrei as pálpebras e matei a dor do abismo que cabe no peito. Um nada. Um grande nada. É o que eu era e o que sou e o que vou ser depois daqui, esgotada a piedade que eu sou indigno de ter. É a sentença. 
Adeus, eu vou subir nos cavalos eternos.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

24h

Como você está depois de todo esse tempo? Hoje passei por aí. Pensei em descer do ônibus e te ver, dizer oi e jogar conversa fora, um café ou dois e talvez ver algo na tv com você. Melhor não, eu pensei. Talvez você não estivesse em casa, ou talvez estivesse dormindo. Quem sabe se não ia se recusar a me receber. Eu jamais saberia.
Eu pensei em todas as considerações que fizemos. Em todas as coisas que já conversamos. Hoje, quando me sentei pra almoçar e vi teu lugar vazio à minha frente. Eu não sei se vou, algum dia, conseguir me acostumar com a tua ausência ali, materializada. Voltei à estaca zero.
Não, eu não quero acreditar que você vai embora.
Quando nos veremos de novo? Parecem mil anos desde a última vez. Mil anos que eu carrego esse peso nos ombros. Essa saudade do futuro que não chegou.
Me diz a que horas nós voltaremos a nós. Eu quero apagar a luz e só abrir a janela na hora real, e viver das memórias da ponta dos teus dedos até lá. 
Acho que já estou no limite do abismo.
Não demora a ligar de novo. Eu vou acordar com a frequência da tua voz.

sábado, 28 de outubro de 2017

Pausa

Esse é o meu pedido de desculpas por escrito. Um dos tantos que eu já te fiz. Um que consiga te dizer tudo que eu disse e deixei de dizer pra você.
Um pedido de desculpas que eu queria que eximisse e anulasse meu diploma de filho da puta, esse título tão miserável que eu passei a carregar comigo a partir do momento fatal em que comecei a desperdiçar você. 
Sim, eu vim aqui repetir tudo o que você já ouviu. Essa é uma culpa que eu vou levar comigo até o último segundo de expiração que a minha existência conter. Não, não é por orgulho nem puro remorso. Todo sentimento mesquinho do mundo não contém o arrependimento de cada uma dessas letras, nem a dor que cada lágrima tua descarregou no meu peito.
Eu nos desperdicei. Não soube te cuidar. E isso, meu amor, é uma culpa toda minha. 
Malditos sejam os poetas que me fazem acreditar na remissão se ela não vier de ti. Eu não tenho esse direito de não te deixar escorregar por entre os dedos. 
E, não, eu não quero te ver partir. Eu sei que eu me isolei de nós dois, mas nessa hora morta eu vejo o pedaço rasgado do nosso laço, de quando eu me fiz ausência, e o sangue escorre de ambos os lados.
Eu não posso mais te pedir por inteiro e te devolver meus pedaços.
Desculpa. Tira a culpa. Tira o peso. Tu sabes das minhas faltas. Culpado. Te peço que me liberte delas.
Chegará o dia, meu sol e estrelas, em que, depois dessa madrugada, nós não seremos poente. Lá não haverá choro e ranger de dentes, só a nossa espera tendo ocaso e o teu perdão me sorrindo.
Ali, sem reservas e sem armaduras, transbordando, nós seremos um só.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Você nunca mais vai me ver de novo

Eu queria poder dizer que alguma coisa mudou desde o último texto que te escrevi. Desde aquele nosso último dia de chuva. Desde o começo do fim.
Eu realmente não faço ideia do que isso significa. Particularmente, é como revisitar uma casa antiga, um retiro, de certo modo abandonado, mas que sempre esteve ali. Porém, do lado de fora da janela a chuva nunca pareceu tão forte, os vidros estão completamente embaçados, as gotas escorrem, aqui dentro é escuro e eu mal posso ver os rostos dos meus amigos que espreitam preocupados e ansiosos pra saber o que acontece no breu silencioso desse lugar.
Não posso dizer que é confortável, não posso dizer que me sinto bem aqui. É bastante assustador, na verdade. A atmosfera é pesada, mal dá pra respirar e as paredes parecem assombradas. As molduras dos retratos estão descascadas e empoeiradas, mas as imagens das fotos ainda estão intactas no celular e na retina. Há muitas delas aqui. Só elas, praticamente.
Eu tentei não me trancar aqui dentro. Continuo sentado procurando as chaves, inclusive. Mas eu tentei não cair trôpego e dilacerado sobre a porta, quando cheguei, tentei não me arrastar pelo assoalho pra encontrar um lugar em que eu pudesse me dobrar e ali ficar, tentei não ouvir o vento batendo a porta e girando a fechadura. 
Juro que tentei.
Me desfazer das tuas lembranças, não olhar pra essas fotos, quem sabe tirar da cabeça, fazer uma lobotomia, me apagar de excessos, conhecer outros corpos, abrir as cortinas, tomar um banho, trocar de roupa. Nem as muitas festas ou idas ao hospital, nem os muitos trabalhos ou toda a música da minha vida. Nada.
Eu não consigo cortar esse laço. Eu não posso. Essas lembranças também são minhas, não são? Deixem-me ficar com elas! Eu não posso me apagar, não, não tenho onde cair morto. É simples, tão simples que chega a ser ridículo: eu não posso me apagar de você.
E você? Ah, de mim você nem lembra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Atrás da porta

Eu tentei, juro. Tentei bancar o herói. Tentei buscar uma força sobrenatural talvez psiquicamente inexistente que pudesse carregar nós dois ao mesmo tempo, fosse numa teia a muitos pés de altura ou nos meus próprios braços enquanto sobrevoaríamos a cidade. Falhei, descobri que sou fraco e que eu só podia carregar teu corpo nos meus braços mas sucumbiria assim que desse o primeiro passo, e assim o fiz. A sensação interminável de cair só não é pior do que a dor de se estabacar no chão, se sentir quebrado, sem conserto. Não passa nunca, não para de doer e parece que só se repete e repete cada vez que eu lembro de como foi a primeira vez que chegamos aqui.
Eu tentei, tentei com todas as minhas forças pôr aquele sorriso lindo no teu rosto. Tentei te fazer rir todas as vezes que eu pude, só pra não rever a sombra nos teus olhos, só pra ouvir o som do teu riso. O que sobrou agora foi só o teu olhar perdido, tua boca em negação e meu punho sangrando depois de socar a parede.
Eu tentei ao máximo te trazer pra mim. Tentei despertar em ti aquela linha tênue entre a razão e a loucura que leva a gente ao risco. Tentei ser uma das tuas razões pra acordar de manhã e encarar o mundo, aquele nome que a gente ouve e sente as borboletas dançando no estômago. Clichê miserável. Falhei, falhei e falhei. Em tudo. Eu sabia que jamais seria capaz de te acordar do pesadelo, de te tirar dessa sala vazia e te mostrar o outro lado do mundo.
Nos perdemos.
Até as boas lembranças estão embaçadas. Parece que há anos nós nos vimos pela primeira vez. Estavas lindo naquele dia. Lembra quando tentamos dançar? Eu devia ter te chamado pra plateia mais vezes se tivesse descoberto antes que eu subia no palco só pra te ver ali sentado. Eu jamais vou esquecer de como te apresentei pra família, aos poucos. De como dividimos nosso teto de estrelas. Das nossas fotos de ano novo. De como estavas lindo aquela noite e de como eu amei te ver rindo e correndo pela praia junto comigo, de como eu segurei tua mão com força enquanto o mundo era um borrão a nossa volta, de como nos beijamos enquanto aqueles fogos estouravam no céu e prometiam que eu te teria pro resto desse ano. Ouvimos que promessas são coisas que foram feitas pra não serem quebradas, nunca. Tu não sabes o quanto eu queria que a promessa daqueles primeiros céus de 2017 fosse real e que tu continuasses aqui comigo. Sei que é egoísmo puro e que eu te disse que não tinha o direito de te pedir pra ficar. Mas eu só queria que soubesses que eu te dei tudo, até o que não tinha, e que sempre vou estar aqui te esperando, sentado nesse banco do ponto de ônibus onde sempre nos despedimos, pensando em quando te veria de novo. 
Agora essa é a pergunta que eu vou carregar comigo todos os dias em que eu acordar sozinho, sair pra encarar a cidade, encontrar as pessoas na rua e enxergar nelas alguma coisa que me lembre de ti e de como minha tristeza desaparecia quando estavas no meu abraço. Espero que esse sentimento tenha sido algum dia recíproco. Que no meu abraço tu tivesse encontrado algum refúgio pra esquecer desses pedaços que um dia fizeram de ti. Que eu não tenha desperdiçado teu tempo. Eu só queria ver teu sorriso e ouvir tua voz dizendo que estavas bem.
No fim, eu tentei e acho que só não falhei em uma coisa: em te deixar ir embora.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Morena

Holofotes.
Flash.
Câmera, ação.
E eu só quis ver teus olhos.
Nada mais importava. Não aos acordes, não ao piano, nada à plateia. Naquele momento éramos só tu e eu.
Era o que eu ansiava: no meio de tanta gente, só os teus olhos me viam. A canção era reescrita, poesia nova, jamais outrora cantada. Entenda, amor, eu nunca fui compositor, mas aquele palco foi testemunha fiel da novíssima melodia mais bela já ouvida pelo mundo. O primeiro texto que eu te dediquei foi registrado na conexão dos nossos olhares, passado no cartório do público e a minha alma gesticulava a pena ao ar pronta pra redigir aquela declaração que há muito eu guardava e que finalmente minha boca te escrevia. Sim, amor, nós somos orais.
Tenho certeza que aquela música eu jamais aprendi, nunca ensaiei e sequer aqueci a voz pra cantar. Não, tu fizeste tudo novo, me trouxeste tudo novo. Tua pele não é morena. Tu chegaste e desarrumaste a cama, viraste a louça do avesso, me despiu de incertezas. Hoje começo a entender que, se me és música, és comida, bebida, sono, riso, melancolia, ciúme, carne e osso. Tua franca inocência é realidade pura que ninguém, em lugar algum, pôde pensar que me deteria.
Licença parafrástica camoniana, talvez seja nisso em que tudo me defina: oferecer os pulsos, entregar-se e estar preso por vontade própria.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Poemeto

Apague a luz, querido, eu vou te buscar na esquina.
Não, eu ainda estou em pedaços, por isso deixe-me ser inteiro dentro de você desta vez.
Tranque a porta e a boca e ninguém poderá nos ouvir ainda que colem seus malditos ouvidos esticados à porta.
Assim prefiro, caro amigo, que eu derrame em você minhas lágrimas, a despeito de tantos colos alheios que a mim se oferecem voluptuosamente em sua virtual e escrupulosa anonimidade. Estes são apenas colos, és parte dos laços que a vida me amarrou.
Ah, vil e doce concupiscência que nos arrasta pra dentro dos meus aposentos e da minha nua alma vazia daquele corpo outro que ainda tanto me preenche de saudade. Irmão amado, deixa sempre que teu não-sangue permaneça nessa nossa lasciva e ambígua fraternidade, enquanto meus antigos pecados marcam-te por dentro e te afogam na petite mort.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Vocativo

Hoje eu guardei nossas lembranças e a constância das coisas.
Hoje os livros estavam na estante, o café à mesa e a metáfora experiente na língua dos velhos.
Hoje perdi o ônibus, me atrasei, divaguei e perdi a mim mesmo no devaneio cotidiano.
Hoje descansei e roguei aos céus que meu sono fosse suficiente pra destituir da memória o gosto saudoso dessa metalinguagem que me constrói.
Hoje encontrei nossos passados, o futuro que nos exclui e um pileque que me fez homérico.
Hoje, meu amor, eu te reencontrei e me perdi, e pedi que também te encontrasse, pois tu não eras mais tu e eu não era mais eu nos teus braços, com meus afagos tão infinitamente desperdiçados e amenizados em braços outros.
Hoje eu redescobri aquele apelo que me faz secretamente chamar meu próprio nome, vocativo que todos os dias, em todos os lugares, em todos os rostos que me passaram, em todos os nomes que me chamaram, me traz de volta o teu rosto, teu toque, teus olhos que me perfuravam e que hoje apenas fugazes me cortam ao meio, em meio à multidão.

(O vocativo é um chamamento, uma invocação, um apelo)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

30 segundos.

Os acordes de uma música desconhecida despertaram as sensações anestesiadas que persistem em encravar por dentro de mim. O estilo não me permite ser conciso e ir direto ao ponto, só que o porém mora na parte que se recusa a remoer e ressignificar qualquer frase por duas ou três vezes mais, sem necessidade. Basta dizer que as lembranças que passaram aos meus olhos agora, cobertas pelo véu da raiva e do esquecimento pressionado, me pareceram de outra pessoa, de outra vida, da história errada, assim como o sujeito a quem se dirigiam meus predicados o é agora; uma ou várias telas quaisquer expostas numa galeria de artes de horror e lágrimas vermelhas, em que passam visitantes alheios e gritam os inocentes - elas são só isso, .
Esse é o início de um novo parágrafo.