segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Insônia
Eis que o brilho da lua gigantesca arde sobre a cabeça dos justos que deitam seus olhos ao céus antes do divino descansar. Ismália, dá-me esta última chance de contemplar tua fulgida queda solitária nos celestes abismos infernais ao ouvir o Ave Signor da mística falange embalar teu sono vil.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Silêncio
É a pedida do momento. O tempo de protelar passou e os dias há muito gritando, gastando latim e esbanjando saliva com o que não era necessário passaram e a hora de falar esgotou. É calar, é silêncio, guardar a voz e tentar equilibrar com a mente, pra não andar com prescrição médica de Bacamarte no bolso. A boca há de calar-se pra que os dedos falem. De resto, basta o coro solfejando.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Recordar é morrer.
Como quem olha para a irregularidade dos passos deixados, assim vi todas as memórias que registrei.
Abri aquele baú mínimo, ornado de passado até nos seus entalhes, despreparado inteiramente para rever os olhos petrificados das fotos com indivíduos que voltaram à surdina, das cartas sem endereço, das pulseiras sem par, dos pingentes pela metade, dos bilhetes de um filme que eu não lembro e que há muito saiu de cartaz.
Papel por papel, as cenas se reconstituíram na minha retina e bateu saudade. Saudade das risadas, dos abraços e dos ombros oferecidos na hora em que as lágrimas se permitiam cortar o rosto. O pretérito seria perfeito se elas não me tivessem atravessado o tempo, marcando sua trilha sinuosa de mágoa no meu rosto. Cruel é que as boas coisas sejam cobertas pela nuvem escura da perfídia que as pessoas conseguem reciclar e inovar no seu tédio prosaico.
A vocês, responsáveis por atear fogo às boas memórias, à saudade dos risos, dos abraços, dos ombros oferecidos, fósforo e gasolina. Eu nunca soube lidar com a máxima que espalham por aí e esse problema é de vocês. Guardo o baú intacto, servindo de relicário apenas a quem o merecer. Das cinzas, fênix.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Cartão de visitas.
A mim, único máximo confidente de minhas culpas, tributo a devida gratidão. Reconheço que a ninguém mais cumpro obrigação de depositar os ventos do redemoinho que devasta minha cabeça de hipóteses e sentimentos confusos. Sem vergonha de encarar a contradição, ensaio minha metalinguística para moldar a definição desse espaço: meu.
Minhas sinceras desculpas ao leitor dessas reminiscências. Antes de compartilhar contigo essas suadas frases, esse lugar me serve de um pagão confessionário. Não sou o sujeito, o destinatário das minhas verbalizações exageradamente polidas, mas prefiro deixar o que me pertence sob minha guarda e às tuas vistas. Não que exista necessidade de pagar satisfações ou que minha história seja imprescindível; posso comprar ou vender meu personagem, com ou sem consequências.
Aí mora minha retificação. Esse pedaço de livro aberto da minha cabeça não pode obrigar ninguém à leitura, senão constituir-se convidativo. Agradeço a ti, que me visitas com constância e és de bom grado recepcionado pela solidão.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Dos amigos e amores.
Confesso: não intencionei, desde o princípio, transmutar esse espaço num diário qualquer ou numa coletânea de cartas íntimas abertas (mesmo que tenha criado esse bar de letras pra registrar minhas cinzas memórias e fragmentos de pensares). Eu desejava escrever cada alma e espíritos conhecidos de forma a torná-los palpáveis em uma realidade verossímil, como os laços de amor e amizade literários que estreitamos, mas que não podemos consumá-los em matéria existente. Dói-me vê-los ainda apagados, inexistentes nas frases não publicadas, como se os espaços há muito reservados para eles não estivessem preenchidos - eles que me fazem inteiro. Essa vida confusa que não sabe se balança pra um lado, pra outro ou fica inquietantemente equilibrada no fio do Tempo, não torna o processo mais fácil, senão mais disforme. Os segundos contados, a corrida contra o eu, a vontade de parar o mundo por um segundo, minuto, hora, dia... respiro. Respiro e escrevo. Escrevo por sentir a necessidade de quitar uma parte dessa conta, antes que o preço seja tão exorbitante, a ponto de perder o troco em mãos.
Cada ser, em singularidade, desenrola-se harmonioso na minha sinfonia cotidiana. É aí que mora o medo: talvez os contornos que eu traceje das pessoas tenha que acompanhar suas decepções, sorrisos, lágrimas e alegrias. Receio que minhas mãos trêmulas e ansiosas não saibam concluir digna obra e, ao mesmo tempo, que eu imprima minha subjetividade além do necessário.
Retorno: singulares, todos e cada um. Por isso, abandono esse foco único e deixo que as luzes iluminem os outros cantos do palco, buscando cada personagem desse enredo a fundo e a todos, simultaneamente. Peço perdão por não ter, a princípio, dedicado solenemente esse sacro espaço devido em demasia. Mas, já dizia o ditado. Só assim, consigo fazer jus ao mérito de todos os que merecem que eu lhes tire meu chapéu.
Cada ser, em singularidade, desenrola-se harmonioso na minha sinfonia cotidiana. É aí que mora o medo: talvez os contornos que eu traceje das pessoas tenha que acompanhar suas decepções, sorrisos, lágrimas e alegrias. Receio que minhas mãos trêmulas e ansiosas não saibam concluir digna obra e, ao mesmo tempo, que eu imprima minha subjetividade além do necessário.
Retorno: singulares, todos e cada um. Por isso, abandono esse foco único e deixo que as luzes iluminem os outros cantos do palco, buscando cada personagem desse enredo a fundo e a todos, simultaneamente. Peço perdão por não ter, a princípio, dedicado solenemente esse sacro espaço devido em demasia. Mas, já dizia o ditado. Só assim, consigo fazer jus ao mérito de todos os que merecem que eu lhes tire meu chapéu.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Implodindo.
O castigo do sol incidia sobre minha cabeça. Ironia, o dia não podia transcorrer mais cinza, resquício de combustão completa.
Não, meus amigos, aquele não foi o fim dele. Estado de latência apenas passageiro, letargia que não se preocupou em resguardar a lentidão do processo: olhos escancarados de súbito para a mais aterradora visão. Impacto inenarrável, inutilmente tentado ser arranhado no papel − fixado na retina.
As cortinas se abrem, as luzes acendem, todos se levantam em silêncio, sem aplausos ou vaias. Resta apenas o vazio, além daquele espectador imóvel e as vozes que saem do fosso, molestando a tormenta do consciente à deriva.
Um naufrágio pairando e a tragédia de Wagner pronta a ser parafraseada.
Falta-lhe ainda o golpe de misericórdia, pra que essa exatidão disforme se desfaça em partículas. Ela se nega a dar. Ela se nega a não dar. Prefere continuar alheia ao fluxo indelével de aparente felicidade que o comprime no nada dessa sala, sufocando seu lamento ensurdecedor. Não, ela está aqui, na minha frente. O invólucro há de ser mantido até que ela intempestiva venha quebrar a umbra. Eis minha vã esperança ante a certeza da morte exorbitante.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
The end
Fim.
Assim começa a história.
Com o fim da minha sanidade. Com o fim de todas as perspectivas ilusoriamente criadas.
É o fim dos esforços por uma causa há muito perdida. Fim da batalha travada dentro de mim mesmo e contra as pressões externas. De vez, o muro desaba.
É o fim das atitudes desesperadas e inconsequentes. É o fim das mechas de cabelo amontoadas no chão. É o fim dos comas alcoólicos e dos remédios em demasia. É o fim das marcas e do desenho da lua, cravado no pulso e nos olhos ansiosos de rever aquela luminosidade refletida.
É o fim da prosa e da poesia. Fim da história de terror e do conto de fadas. Escrita morta.
Adeus imposto, sem deliberação, consentimento ou qualquer eufemismo. Ruptura imputada impiedosamente.
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