quinta-feira, 8 de maio de 2014

Recordar é morrer.

Como quem olha para a irregularidade dos passos deixados, assim vi todas as memórias que registrei.
Abri aquele baú mínimo, ornado de passado até nos seus entalhes, despreparado inteiramente para rever os olhos petrificados das fotos com indivíduos que voltaram à surdina, das cartas sem endereço, das pulseiras sem par, dos pingentes pela metade, dos bilhetes de um filme que eu não lembro e que há muito saiu de cartaz.
Papel por papel, as cenas se reconstituíram na minha retina e bateu saudade. Saudade das risadas, dos abraços e dos ombros oferecidos na hora em que as lágrimas se permitiam cortar o rosto. O pretérito seria perfeito se elas não me tivessem atravessado o tempo, marcando sua trilha sinuosa de mágoa no meu rosto. Cruel é que as boas coisas sejam cobertas pela nuvem escura da perfídia que as pessoas conseguem reciclar e inovar no seu tédio prosaico.
A vocês, responsáveis por atear fogo às boas memórias, à saudade dos risos, dos abraços, dos ombros oferecidos, fósforo e gasolina. Eu nunca soube lidar com a máxima que espalham por aí e esse problema é de vocês. Guardo o baú intacto, servindo de relicário apenas a quem o merecer. Das cinzas, fênix.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Cartão de visitas.

A mim, único máximo confidente de minhas culpas, tributo a devida gratidão. Reconheço que a ninguém mais cumpro obrigação de depositar os ventos do redemoinho que devasta minha cabeça de hipóteses e sentimentos confusos. Sem vergonha de encarar a contradição, ensaio minha metalinguística para moldar a definição desse espaço: meu.
Minhas sinceras desculpas ao leitor dessas reminiscências. Antes de compartilhar contigo essas suadas frases, esse lugar me serve de um pagão confessionário. Não sou o sujeito, o destinatário das minhas verbalizações exageradamente polidas, mas prefiro deixar o que me pertence sob minha guarda e às tuas vistas. Não que exista necessidade de pagar satisfações ou que minha história seja imprescindível; posso comprar ou vender meu personagem, com ou sem consequências.
Aí mora minha retificação. Esse pedaço de livro aberto da minha cabeça não pode obrigar ninguém à leitura, senão constituir-se convidativo. Agradeço a ti, que me visitas com constância e és de bom grado recepcionado pela solidão.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dos amigos e amores.

Confesso: não intencionei, desde o princípio, transmutar esse espaço num diário qualquer ou numa coletânea de cartas íntimas abertas (mesmo que tenha criado esse bar de letras pra registrar minhas cinzas memórias e fragmentos de pensares). Eu desejava escrever cada alma e espíritos conhecidos de forma a torná-los palpáveis em uma realidade verossímil, como os laços de amor e amizade literários que estreitamos, mas que não podemos consumá-los em matéria existente. Dói-me vê-los ainda apagados, inexistentes nas frases não publicadas, como se os espaços há muito reservados para eles não estivessem preenchidos - eles que me fazem inteiro. Essa vida confusa que não sabe se balança pra um lado, pra outro ou fica inquietantemente equilibrada no fio do Tempo, não torna o processo mais fácil, senão mais disforme. Os segundos contados, a corrida contra o eu, a vontade de parar o mundo por um segundo, minuto, hora, dia... respiro. Respiro e escrevo. Escrevo por sentir a necessidade de quitar uma parte dessa conta, antes que o preço seja tão exorbitante, a ponto de perder o troco em mãos.
Cada ser, em singularidade, desenrola-se harmonioso na minha sinfonia cotidiana. É aí que mora o medo: talvez os contornos que eu traceje das pessoas tenha que acompanhar suas decepções, sorrisos, lágrimas e alegrias. Receio que minhas mãos trêmulas e ansiosas não saibam concluir digna obra e, ao mesmo tempo, que eu imprima minha subjetividade além do necessário.
Retorno: singulares, todos e cada um. Por isso, abandono esse foco único e deixo que as luzes iluminem os outros cantos do palco, buscando cada personagem desse enredo a fundo e a todos, simultaneamente. Peço perdão por não ter, a princípio, dedicado solenemente esse sacro espaço devido em demasia. Mas, já dizia o ditado. Só assim, consigo fazer jus ao mérito de todos os que merecem que eu lhes tire meu chapéu.