Como quem olha para a irregularidade dos passos deixados, assim vi todas as memórias que registrei.
Abri aquele baú mínimo, ornado de passado até nos seus entalhes, despreparado inteiramente para rever os olhos petrificados das fotos com indivíduos que voltaram à surdina, das cartas sem endereço, das pulseiras sem par, dos pingentes pela metade, dos bilhetes de um filme que eu não lembro e que há muito saiu de cartaz.
Papel por papel, as cenas se reconstituíram na minha retina e bateu saudade. Saudade das risadas, dos abraços e dos ombros oferecidos na hora em que as lágrimas se permitiam cortar o rosto. O pretérito seria perfeito se elas não me tivessem atravessado o tempo, marcando sua trilha sinuosa de mágoa no meu rosto. Cruel é que as boas coisas sejam cobertas pela nuvem escura da perfídia que as pessoas conseguem reciclar e inovar no seu tédio prosaico.
A vocês, responsáveis por atear fogo às boas memórias, à saudade dos risos, dos abraços, dos ombros oferecidos, fósforo e gasolina. Eu nunca soube lidar com a máxima que espalham por aí e esse problema é de vocês. Guardo o baú intacto, servindo de relicário apenas a quem o merecer. Das cinzas, fênix.
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