quarta-feira, 30 de abril de 2014

Implodindo.

O castigo do sol incidia sobre minha cabeça. Ironia, o dia não podia transcorrer mais cinza, resquício de combustão completa.
Não, meus amigos, aquele não foi o fim dele. Estado de latência apenas passageiro, letargia que não se preocupou em resguardar a lentidão do processo: olhos escancarados de súbito para a mais aterradora visão. Impacto inenarrável, inutilmente tentado ser arranhado no papel − fixado na retina.
As cortinas se abrem, as luzes acendem, todos se levantam em silêncio, sem aplausos ou vaias. Resta apenas o vazio, além daquele espectador imóvel e as vozes que saem do fosso, molestando a tormenta do consciente à deriva.
Um naufrágio pairando e a tragédia de Wagner pronta a ser parafraseada.
Falta-lhe ainda o golpe de misericórdia, pra que essa exatidão disforme se desfaça em partículas. Ela se nega a dar. Ela se nega a não dar. Prefere continuar alheia ao fluxo indelével de aparente felicidade que o comprime no nada dessa sala, sufocando seu lamento ensurdecedor. Não, ela está aqui, na minha frente. O invólucro há de ser mantido até que ela intempestiva venha quebrar a umbra. Eis minha vã esperança ante a certeza da morte exorbitante.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

The end

Fim.
Assim começa a história.
Com o fim da minha sanidade. Com o fim de todas as perspectivas ilusoriamente criadas. 
É o fim dos esforços por uma causa há muito perdida. Fim da batalha travada dentro de mim mesmo e contra as pressões externas. De vez, o muro desaba.
É o fim das atitudes desesperadas e inconsequentes. É o fim das mechas de cabelo amontoadas no chão. É o fim dos comas alcoólicos e dos remédios em demasia. É o fim das marcas e do desenho da lua, cravado no pulso e nos olhos ansiosos de rever aquela luminosidade refletida.
É o fim da prosa  e da poesia. Fim da história de terror e do conto de fadas. Escrita morta.
Adeus imposto, sem deliberação, consentimento ou qualquer eufemismo. Ruptura imputada impiedosamente.
Escolheu desprender-se e fazer de mim e de nosso conto fantasma renegado ao canto escuro do passado. Subentendido.
Sou peça ainda viva e pulsante da velha coleção dos sonhos queimados, emoldurada no ouro, enfileirada na prateleira de baixo da estante.