quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Morena

Holofotes.
Flash.
Câmera, ação.
E eu só quis ver teus olhos.
Nada mais importava. Não aos acordes, não ao piano, nada à plateia. Naquele momento éramos só tu e eu.
Era o que eu ansiava: no meio de tanta gente, só os teus olhos me viam. A canção era reescrita, poesia nova, jamais outrora cantada. Entenda, amor, eu nunca fui compositor, mas aquele palco foi testemunha fiel da novíssima melodia mais bela já ouvida pelo mundo. O primeiro texto que eu te dediquei foi registrado na conexão dos nossos olhares, passado no cartório do público e a minha alma gesticulava a pena ao ar pronta pra redigir aquela declaração que há muito eu guardava e que finalmente minha boca te escrevia. Sim, amor, nós somos orais.
Tenho certeza que aquela música eu jamais aprendi, nunca ensaiei e sequer aqueci a voz pra cantar. Não, tu fizeste tudo novo, me trouxeste tudo novo. Tua pele não é morena. Tu chegaste e desarrumaste a cama, viraste a louça do avesso, me despiu de incertezas. Hoje começo a entender que, se me és música, és comida, bebida, sono, riso, melancolia, ciúme, carne e osso. Tua franca inocência é realidade pura que ninguém, em lugar algum, pôde pensar que me deteria.
Licença parafrástica camoniana, talvez seja nisso em que tudo me defina: oferecer os pulsos, entregar-se e estar preso por vontade própria.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Poemeto

Apague a luz, querido, eu vou te buscar na esquina.
Não, eu ainda estou em pedaços, por isso deixe-me ser inteiro dentro de você desta vez.
Tranque a porta e a boca e ninguém poderá nos ouvir ainda que colem seus malditos ouvidos esticados à porta.
Assim prefiro, caro amigo, que eu derrame em você minhas lágrimas, a despeito de tantos colos alheios que a mim se oferecem voluptuosamente em sua virtual e escrupulosa anonimidade. Estes são apenas colos, és parte dos laços que a vida me amarrou.
Ah, vil e doce concupiscência que nos arrasta pra dentro dos meus aposentos e da minha nua alma vazia daquele corpo outro que ainda tanto me preenche de saudade. Irmão amado, deixa sempre que teu não-sangue permaneça nessa nossa lasciva e ambígua fraternidade, enquanto meus antigos pecados marcam-te por dentro e te afogam na petite mort.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Vocativo

Hoje eu guardei nossas lembranças e a constância das coisas.
Hoje os livros estavam na estante, o café à mesa e a metáfora experiente na língua dos velhos.
Hoje perdi o ônibus, me atrasei, divaguei e perdi a mim mesmo no devaneio cotidiano.
Hoje descansei e roguei aos céus que meu sono fosse suficiente pra destituir da memória o gosto saudoso dessa metalinguagem que me constrói.
Hoje encontrei nossos passados, o futuro que nos exclui e um pileque que me fez homérico.
Hoje, meu amor, eu te reencontrei e me perdi, e pedi que também te encontrasse, pois tu não eras mais tu e eu não era mais eu nos teus braços, com meus afagos tão infinitamente desperdiçados e amenizados em braços outros.
Hoje eu redescobri aquele apelo que me faz secretamente chamar meu próprio nome, vocativo que todos os dias, em todos os lugares, em todos os rostos que me passaram, em todos os nomes que me chamaram, me traz de volta o teu rosto, teu toque, teus olhos que me perfuravam e que hoje apenas fugazes me cortam ao meio, em meio à multidão.

(O vocativo é um chamamento, uma invocação, um apelo)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

30 segundos.

Os acordes de uma música desconhecida despertaram as sensações anestesiadas que persistem em encravar por dentro de mim. O estilo não me permite ser conciso e ir direto ao ponto, só que o porém mora na parte que se recusa a remoer e ressignificar qualquer frase por duas ou três vezes mais, sem necessidade. Basta dizer que as lembranças que passaram aos meus olhos agora, cobertas pelo véu da raiva e do esquecimento pressionado, me pareceram de outra pessoa, de outra vida, da história errada, assim como o sujeito a quem se dirigiam meus predicados o é agora; uma ou várias telas quaisquer expostas numa galeria de artes de horror e lágrimas vermelhas, em que passam visitantes alheios e gritam os inocentes - elas são só isso, .
Esse é o início de um novo parágrafo.