Você ama sua vida de solteiro. Eu vi isso no movimento displicente e desprezível dos seus ombros largos para a minha inexistência naquele momento fugaz. Não perca mais seu tempo comigo. Continue a conversar com seus contatos. Mande suas fotos íntimas para eles, de preferência aquelas que eu fiz. Marque de novo um dia para você ir visitá-los ou um momento no qual eles dediquem meia hora para você matar essa vontade enorme de senti-los dentro de você. Ou vice-versa. Como queira. Depois do que eu vi, todo o resto se tornou um grande teatro. Relacionamento de aparência, não foi isso o que você disse? Volte a beijar aqueles caras que você sempre quis ficar e nunca ficou, o papinho todo. Mas faça isso antes que você se mude, para evitar o arrependimento. Não faz diferença para mim – e eu não faço para você. Eu fui só uma brincadeira e você uma mentira gostosa de contar. Um divertimento daquela hora e para a rotina. Você nunca quis nada comigo – foi covardia não ter me dito –, o que interessa agora é encontrar um artifício, um eufemismo, para tentar atenuar essa culpa que quer martelar no seu cérebro e você em vão tenta anular. Continue a me esconder para as pessoas que você não quer que saibam de mim. De nós. Do que nós éramos. Continue a fazer de mim o grande vilão dessa história, quando as minhas únicas culpas foram a de confiar cegamente em você, de tentar acreditar em nós, mesmo sendo contraproducente, e de tentar me proteger devolvendo seu crime na mesma moeda – nisso eu falhei: você me atingiu com um tanque de guerra e eu respondi com um calibre 22. Agradeço a você por, pelo menos, não fingir que se importa nessa hora final. Eu não sou o pessimista que só pesa o lado negativo, são as coisas ruins que você faz que têm um peso desproporcionalmente intenso. Compreendi claramente o que significa "desapegar e ficar de boa": você fingir que não estamos no mesmo lugar, que eu sou uma pessoa qualquer, significa você sair para beijar quem quiser quando eu não estiver por perto, mesmo que ainda não tivéssemos definido o fim (talvez você já tivesse até planejado isso). Espero que você aproveite de verdade essa sua vida em São Paulo. Que tenha muito sucesso no trabalho com a competência – e entre outras coisas, a falta de caráter e a capacidade de ser cruel quando quer, por exemplo – que você herdou do seu pai e mais de uma vez já provou ter. Acima de tudo, desejo a você a reciprocidade das suas ações e que você tenha estrutura psíquica para saber lidar com ela, principalmente usando as pessoas como produtos descartáveis, do jeito que você fez comigo. Peça agô a Xangô, porque o tempo tudo cobra.
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